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Avante P'lo Benfica

Uma visão apaixonada do Sport Lisboa e Benfica e de tudo o que o rodeia, sem descurar dos seus princípios e da sua história.

Um futuro de Vitória

por Rui, em 20.06.15

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Os benfiquistas podem esperar uma dedicação enorme, uma entrega permanente. Quando se representa um clube desta dimensão é fundamental dar a vida por este clube.

Rui Vitória foi apresentado no dia 15 de junho como nosso treinador para as próximas três épocas, após dias (longos) de novelas, especulações e muitas suposições. Na generalidade, ou pelo menos com base no que se pode inferir pelo que se vai lendo pela internet fora, este treinador não era visto como uma escolha positiva para assumir o cargo de treinador do Benfica, dando-se preferência à renovação de Jorge Jesus ou até a Marco Silva, que também se viu envolvido numa zaragata com o clube que representava até há algumas semanas. A escolha acabou por recair sobre o antigo treinador do Vitória e será ele o principal comandante dos nossos destinos nos próximos tempos.

 

Penso que a escolha de Rui Vitória sobre Marco Silva é, sobretudo, lúcida. Não se caiu na parolice de querer afrontar um rival só porque sim. Parolice porque, e sem querer parecer anjinho, nós Benfiquistas temos perfeita noção da nossa dimensão e das nossas motivações, e das diferenças e ilações que daí se podem retirar, e porque o cargo de treinador do Benfica não é para brincadeiras nem pode tão pouco servir para provocações. No contexto do Sport Lisboa e Benfica como clube, e dadas as dimensões das várias modalidades onde o clube tem representação, fruto da nossa natureza eclética, diria que o cargo de treinador principal do Futebol do Benfica é o segundo cargo mais importante do Clube, só ultrapassado pelo cargo de Presidente. Não pode servir para brincadeiras e ainda bem que assim foi.

 

O novo treinador do Benfica é visto pela vasta maioria dos que discutem o Benfica na internet como um treinador que joga de forma antiquada (o clássico bola p'ra frente), que só serve para equipas pequenas e que não tem o fio de jogo que se exige quando estás num clube com a grandeza e motivações como o Benfica. Eu próprio considerava estes pontos todos para não ver Rui Vitória como uma alternativa viável a Jorge Jesus. Com o tempo e quando chegamos a uma altura em que estaria iminente a entrada deste treinador no nosso clube, decidi parar e pensar, tentar descobrir certezas sobre a forma de trabalhar do nosso timoneiro, libertar-me de alguns estereótipos e preconceitos. Afinal, se Rui Vitória nunca esteve (em séniores!) numa equipa como o Benfica nem nunca teve os recursos que os treinadores do nosso clube geralmente têm, talvez as opiniões sobre ele estejam um pouco enviesadas. Comprei, portanto, o livro «A Arte da Guerra Para Treinadores», escrito pelo próprio. Que melhor maneira de descobrir o homem senão deixá-lo explicar-me as ideias dele?

Um treinador é isso. É um exemplo e uma referência. Tenho de ser o primeiro a dar o exemplo, a cumprir. Se exijo o máximo aos meus jogadores, tenho de ser o primeiro a dar o máximo.

O primeiro excerto que me salta à vista é este. Num capítulo em que o actual treinador do Benfica refere que veio parar à profissão de treinador «de forma inesperada», também revela uma ideia de entrega completa e insinua uma promessa de trabalho árduo, mas por gosto. E, de facto, não pode ser de outra maneira, seja em que clube for: ao treinador devemos exigir trabalho intenso, ponderado e paixão pela área em que se encontra. Sou dos que acredita que estando a trabalhar em algo de que gostas, é meio caminho andado para ter sucesso. É algo que te pode estimular positivamente, talvez de forma inconsciente. Dá-te alguma força natural e pode ajudar a que te transcendas. 

É importante ter sempre presente a capacidade de antecipar os cenários. É a história das duas cadeiras. Uma imagem que se aplica a tudo na vida, e à arte de treinar também. Penso que devemos ter sempre connosco a imagem das duas cadeiras, frente a frente, uma onde nos sentamos, e outra onde se senta a pessoa que interage connosco, neste caso, o nosso jogador. Um líder tem de ter a capacidade de se sentar nas duas cadeiras, de sentir o que o outro sente.

Rui Vitória teve uma carreira de futebolista fugaz e pouco vistosa, mas deu para que entendesse como as coisas funcionam no mundo do futebol do ponto de vista dos atletas. Pode-se dizer que sabe o que a casa gasta. É uma qualidade importante para um treinador, mas não surpreende dada a importância que o treinador dá a questões do foro mental e ao bem-estar psicológico. Sabe bem como os jogadores se sentem em vários momentos e procura conhecê-los, mas mantendo sempre alguma distância a nível pessoal, de forma a poder ver todas as questões que um treinador terá pela frente com a maior lucidez e ponderância possíveis. É o que Rui Vitória chama de «ver a floresta e não as árvores», mas não exclui a possibilidade de se «meter no meio das árvores» quando achar necessário.

Considero que, em termos de novas contratações, os jogadores formados nas camadas jovens do clube e aqueles que estão lá fora, no mercado, devem ser considerados com a mesma atenção. No final, trata-se de procurar os melhores, e sobretudo os melhores para a equipa que queremos construir. O crivo, o critério, quando o treinador forma a sua equipa deverá ser sempre o mesmo, a qualidade! Um bom jogador não deve ser visto simplesmente pelas suas qualidades futebolísticas. Deverá ser uma mistura de "corpo, mente e coração" com talento e trabalho.

Aqui temos um ponto onde Rui Vitória poderá divergir de forma notória de Jorge Jesus. Ao longo dos seis anos do antigo treinador do Benfica no nosso clube, sempre se falou de formação e de não olhar para os que já estão no clube, para as camadas jovens, desconfiando até que pudesse ter a ver com as nacionalidades dos jogadores supostamente ignorados. Chegou-se até a dizer que JJ teria dito a alguns jovens que com ele nunca iriam jogar no Benfica. Rui Vitória mostra uma ideia completamente distinta destes pontos que referi: valoriza tanto a prata da casa como uma potencial estrela que possa vir do estrangeiro. E o Benfica tem, de facto, um centro de estágios de fazer corar de inveja muitos clubes por esse Mundo fora e tem produzido jovens com potencial. Com esta postura, é provável que Rui Vitória tente explorar o potencial desses jovens até ao máximo. Isto pode trazer benefícios sobretudo no campo financeiro, onde se torna cada vez mais necessário fazer uma espécie de contenção.

Ao longo de uma semana, o trabalho assenta sempre numa noção muito importante que é a do triângulo de rendimento. Do lado esquerdo do triângulo, coloco a minha análise do jogo anterior, o que fizemos bem, o que fizemos mal, o que temos de melhorar. Representa o passado. Do lado direito do triângulo, vou apontar o que nos espera, o que prevejo que iremos encontrar no domingo seguinte, no fundo, o que espero do adversário e do contexto do jogo, e anoto três ou quatro coisas que considero importantes fazermos enquanto equipa para vencer a batalha. No vértice inferior do triângulo, vou definir o futuro próximo. E aí vou definir os conteúdos a desenvolver durante esse microciclo [seis dias de trabalho numa semana, incluíndo o jogo].

A esquematização e simplificação da representação de ideias ajudará, seguramente, a potenciar discussões mais interessantes e com maior facilidade entre jogadores e equipa técnica. Creio que é essa a intenção de Rui Vitória com este triângulo (é literalmente um triângulo, no livro tem uma representação gráfica). Sem esquecer o que se fez no jogo anterior, porque há sempre ilações novas a retirar e coisas para melhorar, não há equipas perfeitas, e sempre a pensar no próximo adversário, tenta-se trabalhar de uma maneira reflectida e, arriscarei dizer, pragmática, a equipa que está em constante mudança e melhoria. Se esta ideia do triângulo parecer estranhamente pedagógica para um treinador de futebol, é normal: Rui Vitória já foi professor de educação física!

Antigamente, dava-se uma importância quase excessiva à chamada "pré-época", toda a época de trabalho de uma equipa que antecede o início das competições. Este "peso" desmesurado da pré-época devia-se, penso eu, à importância, também ela excessiva, que se dava à forma física, vista de forma separada, distinta dos outros factores. Hoje, isso já não acontece. Entende-se que os aspectos físicos não estão dissociados de outros elementos como a vertente técnica, a táctica ou a mental. É esta visão sistémica, que já abordámos, que nos leva a uma redefinição da pré-época e do seu peso no conjunto da temporada (...) é um momento de aquisição de um conjunto de conceitos e princípios que vão cimentar a constituição da equipa (...) é neste momento de relativa calmaria que [o treinador] melhor pode desenhar e desenvolver a equipa.

O que retirar deste excerto? A pré-época não é decisiva para o rumo da temporada, mas também não é irrelevante. Pode ser completamente ignorada e trabalhada de forma despreocupada, ou pode ser aproveitada como uma oportunidade de ouro para começar a criar e incutir ideias de jogo na equipa. Aproveitar que não há ainda tanto furor como haverá por parte dos adeptos e da imprensa como a meio da temporada e trabalhar os jogadores tranquilamente, começar a criar os alicerces da forma de jogar que se espera conseguir executar durante toda a temporada. Ou, de uma forma mais resumida, não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje.

O trabalho de análise e preparação exaustiva pode ser mais acentuado quando o adversário que nos espera é uma equipa teoricamente mais fraca (...) pelo elemento surpresa, porque são estas equipas mais pequenas, menos conhecidas, menos expostas que muitas vezes mais nos surpreendem (...) é natural, por isso, que quando a minha equipa se prepara para jogar contra um adversário teoricamente mais fraco, eu aumente a pressão, e inversamente, quando o adversário que nos espera é teoricamente mais forte, eu vou tentar aliviar a pressão, transmitindo ao mesmo tempo muita confiança.

Um ponto onde não concordo com o nosso treinador, e um ponto onde Jorge Jesus diverge dele. O antigo treinador do Benfica fazia questão, em quase todas as conferências de imprensa, de reiterar que os adversários são todos complicados e devem todos ser preparados com a mesma importância. Concordo plenamente e não acho que faça sentido distinguir em termos de poderio teórico, até porque pode fazer com que os jogadores vejam adversários de forma diferente de forma inconsciente, abrindo portas a excessiva dedicação (um caso onde o excesso até é capaz de ser bom) ou a algum desleixo e despreocupação (muito negativo). Qualquer adversário é forte e vai tentar transcender-se contra uma equipa com a dimensão do Benfica. É apetecível jogar contra o Benfica e tentar vencer. Muitas vezes, vencer o Benfica é mesmo sinónimo de fazer história: ora porque já não nos vencem há anos, ora porque o Benfica já ganha há muito tempo e se quer demonstrar algum poder, ora porque pode até ser a primeira vitória contra nós. Todos os adversários, fortes ou fracos, seja lá o que isso for - há circunstâncias no futebol que não se controlam e não estou a falar de árbitros, estou a falar de sorte e azar - podem estragar a festa ao Benfica e é importante ter isso em mente e ver todos como difíceis.

Existe uma máxima no futebol, com a qual me identifico muito, que diz: uma boa defesa garante campeonatos, um bom ataque ganha jogos. É evidente que uma boa defesa não é apenas tirar bolas ao adversário ou parar um remate fulminante. Uma boa defesa espelha-se, sobretudo, numa boa organização, numa capacidade de proteger aquilo que é nosso. (...) Mas é evidente que para ganhar um jogo é preciso marcar golos. Por isso, sobretudo num jogo difícil, é necessário que os jogadores que têm a capacidade de decidir jogos apareçam. Uma equipa que esteja só agarrada a uma defesa não ganha jogos.

Um excerto onde, para mim, Rui Vitória se desliga permanentemente da ideia que é um treinador defensivo e de equipa pequena. Fica aqui bem patente a necessidade de uma boa defesa e de um equilíbrio com uma equipa que consegue criar oportunidades e fazer golos. Algo a fazer lembrar as duas últimas épocas do Benfica: as capacidades defensivas melhoraram, perdeu-se um pouco de fulgor atacante mas continuámos a praticar futebol sobretudo ofensivo e atractivo. Algo a que Rui Vitória provavelmente tentará dar continuidade, dada a ideia explícita no excerto.

 

Em suma, diria que o Benfica fica bem entregue a Rui Vitória, após ler o seu livro e ter feito uma cuidada análise dos pontos chave e ter reflectido sobre as explicações do nosso treinador. Deu, também, para me livrar de preconceitos que realmente não tinham razão de existir. É um treinador que aparenta ser perfeitamente capaz de governar um clube como o nosso, sempre com a paixão de quem trabalha neste meio mas sem esquecer a racionalidade necessária para chegar às decisões e conquistar títulos.

Força Benfica!

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